Edição Atual 71  - Revista FAPESP
CIÊNCIA 
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Edição Atual 71 
 
Genética -  Ameríndios eram siberianos
Ed. 71 - 01/02 - pg. 2/3

Assim, na região andina, os grupos indígenas têm populações grandes e experimentaram entre si maiores níveis de fluxo gênico - trocas de material genético nos cruzamentos. Isso implica, de um lado, uma tendência à homogeneização no plano geral, e, de outro, maior diferenciação genética entre indívíduos da mesma população. O contrário ocorreu no leste, entre os grupos da Amazônia, do Planalto Central Brasileiro e do Chaco. Esses têm populações menores e níveis baixos de fluxo gênico de um grupo para outro. Disso resultam tendências a muitos grupos isolados e geneticamente diferenciados, bem como à homogeneidade dentro de cada grupo. 

Desse modo, as populações andinas, ainda que numerosas e geograficamente distantes entre si, experimentaram um intenso fluxo gênico e mantiveram uma identidade cultural comum, compartilhando costumes e língua, o quéchua - outras línguas da região, como aimara e araucano, são muito parecidas com o quéchua dominante e pertencem à mesma família lingüística. Dentro de cada tribo há muita diferenciação genética e, no global, muitas semelhanças entre grupos que vivem a até mais de 3 mil quilômetros de distância um do outro, do Peru ao norte da Argentina. 

Já as tribos das regiões brasileiras e do Chaco mostram características opostas às andinas. Estão fisicamente mais próximas do que, por exemplo, os andinos do norte e os do sul. Dado o seu isolamento mútuo, contudo, apesar da maior proximidade, estão longe de um nível de similaridade cultural, falam línguas bem diversas e revelam pouca diferenciação genética entre os indivíduos de cada tribo. 

Geleiras e florestas

Dados paleoecológicos, lingüísticos e históricos se combinam bem para fundamentar o modelo proposto. Por exemplo, no último período glacial - que durou de 60 mil a 13 mil anos atrás -, a altitude das geleiras nos Andes era muito menor e o frio bem mais intenso, o que limitava o povoamento. Já a leste, predominava um ambiente aberto de savana, praticamente sem matas fechadas, o que por algum tempo favoreceu a comunicação e o fluxo gênico. 

Há 12 mil anos, entretanto, ocorreu a transição Pleistoceno-Holoceno e isso mudou radicalmente. Nos Andes, o nível das geleiras subiu bastante, permitindo a colonização humana em ampla escala, o que favoreceu o desenvolvimento cultural homogêneo, evidente até hoje. "As geleiras", diz Tarazona, "liberaram os Andes, permitindo que as populações humanas se assentassem e desenvolvessem em comum um complexo cultural - e biológico, segundo este estudo -, o que facilitou as migrações". 

Já no leste, as mudanças climáticas causaram a expansão dos refúgios isolados de floresta tropical, queforam ocupando e fechando osespaços da savana,até formar a imensa Floresta Amazônica - mata fechada que, ao contrário da savana, passou a limitar o fluxo gênico. Disso resultou fragmentação populacional e isolamento cultural. Assim, a transição Pleistoceno-Holoceno seria uma espécie de interruptor evolutivo, determinando padrões divergentes de variabilidade genética. É por isso que povos andinos de áreas bem distantes se parecem mais do que, por exemplo, os Ticuna do Amazonas e os Suruí de Rondônia. 
 

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Outros destaques da reportagem 
Migração e diferenciação