Márcia Brito
 

Mata Secundária sob Ação Antrópica no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG.
Roselaini Mendes do Carmo
Fernando A. Silveira
 
(PROJETO CONCLUÍDO – Resultados parciais, abaixo, apresentados no XXII Congresso de Brasileiro de Zoologia)
O Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG está localizado em área residencial da zona leste de Belo Horizonte. Ele compreende uma área de 60 hectares, em sua maior parte coberta por mata preservada há 28 anos. Para melhor avaliação da fauna de abelhas, esta área foi dividida em duas sub-áreas: 1) interior de mata, em que as coletas foram realizadas na beira de trilhas preexistentes e 2) área perturbada, reunindo uma área aberta dominada por plantas invasoras, jardins e ruas.

Foram coletados 718 exemplares de 92 espécies, entre junho de 1996 e junho de 1997. Isto corresponde a 38% do total das espécies coletadas na região metropolitana de Belo Horizonte neste projeto. No interior da mata foram coletados 324 indivíduos de 64 espécies e na área perturbada 394 indivíduos de 73 espécies. Do total, 45 espécies foram comuns às duas áreas; 28 foram coletadas somente na área perturbada e 19 somente no interior de mata (Tabela I) .

TABELA I. Espécies de abelhas coletadas na área perturbada (AP) e área de mata (M) do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG.
 
ABELHAS
AP
M
Total

ANDRENIDAE

     
OXAEINAE      
Oxaea flavescens Klug
6
4
10
PANURGINAE      
CALLIOPSINI      
Acamptopoeum prinii
–
1
1
PROTANDRENINI      
Cephalurgos anomalus
12
9
21
       
APIDAE      
APINAE
     
APINI      
BOMBINA      
Bombus (Fervidobombus) atratus Franklin
2
1
3
Bombus (Fervidobombus) morio (Swederus)
18
17
35
EUGLOSSINA      
Euglossa (Euglossa) cfr. modestior
4
–
4
Euglossa (Euglossa) cfr. securigera
–
1
1
Euglossa (Euglossa) sp.01
1
–
1
Euglossa (Euglossa) townsendi
4
–
4
Eulaema (Apeulaema) cingulata
–
3
3
Eulaema (Apeulaema) nigrita
3
3
5
Exaerete smaragdina 
1
–
1
MELIPONINA      
Geotrigona subterranea
47
26
73
Melipona quadrifasciata
10
13
23
Nannotrigona testaceicornis
14
11
25
Paratrigona lineata
20
17
37
Partamona helleri 
9
5
14
Plebeia droryana 
44
18
62
Tetragonisca angustula
12
10
22
Trigona spinipes
43
30
73
CENTRIDINI      
Centris (Hemisiella) tarsata
1
–
1
Centris (Hemisiella) trigonoides
5
9
14
Centris (Melanocentris) collaris
–
1
1
Epicharis (Epicharana) flava
1
1
2
EUCERINI      
Melissodes (Ecplectica) nigroaenea
1
–
1
Melissodes (Ecplectica) sexcincta
8
1
9
Melissoptila cnecomola
2
10
12
Thygater sp.01
–
1
1
Thygater (Thygater) analis
2
–
2
Trichocerapis mirabilis
2
–
2
EXOMALOPSINI      
Exomalopsis (Exomalopsis) analis Spinola
4
7
11
Exomalopsis (Exomalopsis) auropilosa Spinola
–
3
3
Exomalopsis (Exomalopsis) collaris Friese
1
2
3
Exomalopsis (Exomalopsis) minor Schrottky
1
4
5
Exomalopsis (Exomalopsis) subtilis Timberlake
1
10
11
Exomalopsis (Exomalopsis) tomentosa Schrottky 
–
1
1
Exomalopsis (Exomalopsis) ypirangensis Schrottky
2
4
6
Exomalopsis (Phanomalopsis) diminuta Silveira
3
5
8
TAPINOTASPIDINI      
Monoeca sp.01
3
1
4
Paratetrapedia(Lophopedia) sp.10
1
–
1
Paratetrapedia (Lophopedia) sp.16
–
1
1
Paratetrapedia (Paratetrapedia) sp.01
1
2
3
Paratetrapedia (Paratetrapedia) sp.02
2
3
5
Paratetrapedia (Paratetrapedia) sp. 09
1
1
2
Paratetrapedia (Paratetrapedia) sp. 15
1
–
1
TETRAPEDIINI      
Tetrapedia sp.03
1
–
1
Tetrapedia sp.07
1
12
13
NOMADINAE      
EPEOLINI      
Thalestria spinosa
1
–
1
XYLOCOPINAE      
CERATININI      
Ceratina sp.03
16
6
22
Ceratina sp.05
–
1
1
Ceratina sp.07
2
–
2
Ceratina sp.10
3
–
3
Ceratinula sp.01
6
7
13
Ceratinula sp06
–
1
1
Ceratinula sp.08
1
–
1
XYLOCOPINI      
Xylocopa (Megaxylocopa) frontalis
–
4
4
Xylocopa (Neoxylocopa) brasilianorum
–
1
1
Xylocopa (Neoxylocopa) suspecta
3
1
4
       
COLLETIDAE      
HYLAEINAE      
Hylaeus sp.03
1
–
1
COLLETINAE
     
COLLETINI      
Colletes rugicollis
1
2
3
PARACOLLETINI      
Perditomorpha brunerri
–
2
2
       

HALICTIDAE

     
AUGOCHLORINI      
Ariphanarthra sp. 01
–
1
1
Augochlora (Augochlora) esox
4
1
5
Augochlora (Augochlora) foxiana
5
1
6
Augochlora (Augochlora) tantilla
1
–
1
Augochlora (Oxystoglossella) thalia
1
1
2
Augochlora sp.02
1
1
2
Augochloropsis aurifluens
2
3
5
Augochloropsis brachycephala
2
5
7
Augochloropsis callichroa
1
3
4
Augochloropsis cockerelli
2
–
2
Augochloropsis electra
1
–
1
Augochloropsis hebescens
2
2
4
Augochloropsis patens
14
2
16
Augochloropsis terrestres prognatha
1
–
1
Augochloropsis sp.01
–
4
4
Augochloropsis sp.06
1
–
1
Neocorynura oiospermi
–
1
1
Pseudaugochlora graminea
11
14
25
Pseudaugochlora praepotens 
1
6
7
HALICTINI      
Dialictus sp.10
2
–
2
Dialictus sp.11 
–
1
1
Dialictus sp.12
–
1
1
       
MEGACHILIDAE      
MEGACHILINAE
     
ANTHIDIINI      
Anthodioctes megachiloides
4
1
5
Dicranthidium gregarium
1
–
1
Epanthidium tigrinum
3
–
3
Hypanthidium sp.02
1
–
1
MEGACHILINI      
Megachile (Austromegachile) susurrans
1
–
1
Megachile (Austromegachile) sp.26
1
–
1
Megachile (Leptorachina) laeta 
1
1
2
Megachile (Leptorachis) paulistana
–
2
2
Megachile (Pseudocentron) sp.25
1
–
1

A densidade populacional (Tabela II) e a riqueza esperada em espécies (Tabela III) no Museu foram semelhantes nas duas áreas, embora a densidade tenha sido um pouco maior no interior de mata e a riqueza maior na área perturbada. A densidade de abelhas em ambas as áreas tendeu a ser maior no período quente e chuvoso do ano (Figura I), embora a coleta, nesta época, tenha sido prejudicada pela ocorrência de chuva em alguns dias.

Tabela II: Número de espécies coletadas (NE), número de indivíduos (NI) e densidade populacional (D) em várias localidades em Minas Gerais. 

LOCAL
AMBIENTE
NE
NI
D
FONTE
Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG Interior de mata

Área perturbada 

Total

64

73

92

324

394

718

4,4

3,9

4,1

 
 
Este trabalho
Viçosa 

(Mata do Paraíso)

Interior de mata

Área contígua

Área perturbada

38

74

38

138

461

113

10,6

11,2

5,1

Cure et al., 1992
Estação Ecológica da UFMG Borda de mata
42
78
4,5
Antonini & Silveira (em preparação)
Área perturbada
74
234
4,4
Ponte Nova
Pastagem abandonada em borda de mata
119
874
10,7
Silveira et al., 1993
Tabela III: Número esperado de espécies em amostras aleatórias de 78 indivíduos (E78), 138 indivíduos (E138) e 324 indivíduos (E324) em várias localidades em Minas Gerais. As fontes dos dados para cada área são as mesmas citadas na Tabela II.
 
LOCAL
AMBIENTE
E78
E138
E324
Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG Interior de mata 
34.8
45.4
64.0
Área perturbada
32.5
44.2
66.9
Viçosa 

(Mata do Paraíso)

Interior de Mata
28.8
38.0
-
Área contígua à mata
33.4
45.3
65.4
Área perturbada
31.1
-
-
Estação Ecológica da UFMG Borda de mata
42.0
-
-
Área perturbada
41.4
57.3
-
Ponte Nova Pastagem abandonada à beira da mata
34.8
49.4
77.6

 
 

A fauna de abelhas do Museu apresenta densidade populacional semelhante às de algumas outras áreas de mata ou áreas perturbadas previamente ocupadas por mata em Minas Gerais (Tabela II). A comparação com os dados de Viçosa deve ser feita com cuidado, uma vez que as coletas de Cure et al. (1992) foram realizadas apenas nos meses mais quentes, quando a densidade de abelhas também é maior. No mês de novembro, por exemplo, a densidade de abelhas no Museu foi de 7,5 indivíduos por hora de coleta, valor mais próximo àquele obtido em Viçosa. Em Ponte Nova, a área amostrada era um campo abandonado, mais rico em plantas floríferas (Silveira et al., 1993) do que as áreas do Museu.

Comparando-se a riqueza em espécies das áreas do Museu com as de outras áreas em Minas, através de amostras aleatórias de 324 indivíduos, observa-se um número esperado de espécies relativamente maior em áreas perturbadas do que em áreas cobertas por mata. Isto talvez seja explicado pelo fato de que nestas últimas as coletas são feitas apenas nas margens de trilhas e clareiras, desprezando-se as copas das árvores onde muitas espécies diferentes podem ocorrer.

Algumas das espécies capturadas no Museu (Ariphanarthra sp 01, Exomalopsis diminuta, Hylaeus sp. 03, Thygater sp 01 e Trichocerapis mirabilis) não foram, ainda, encontradas em outros locais em Belo Horizonte. Como nenhuma das áreas amostradas na cidade contém mais que 40% do número total de espécies coletadas na região metropolitana, é importante a preservação de todas as áreas verdes disponíveis, se se quiser maximizar o número de espécies de abelhas a ser preservado no município.



BIBLIOGRAFIA

CURE,J.R.; M.THIENGO; F.A.SILVEIRA & L.B.ROCHA. 1992. Abelhas silvestres (Hymenoptera, Apoidea) da Zona da Mata de Minas Gerais. III – Floresta secundária em Viçosa. Revista Brasileira de Zoologia 9:223-239.

SILVEIRA,F.A.; L.B.ROCHA; J.R.CURE; M.J.F.OLIVEIRA. 1993. Abelhas silvestres (Hymenoptera: Apoidea) da Zona da Mata de Minas Gerais. II – Pastagem abandonada em Ponte Nova. Revista Brasileira de Entomologia 37:595-610.

 


Voltar