O novo paradigma do desenvolvimento
Roberto Nicolsky*
        EM ARTIGO recente nesta página, o embaixador Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia, propôs um debate sobre as bases do desenvolvimento sustentável do nosso país, neste limiar da era do conhecimento (Tendências/Debates", Opinião, 30/4). O presente artigo é uma resposta a esse repto, e esperamos seja seguido por outras.

        O conhecimento é o produto humano mais globalizado e há mais tempo, pois não há cientista, qualquer que seja o seu pais, que não queira divulgar os seus resultados nas publicações do Primeiro Mundo, hoje cada vez mais eletrônicas, tornando-os acessíveis a todos. A esse conhecimento universalizado chamamos ciência, que de per si não propicia o desenvolvimento de nenhum país.

        O uso criativo desse conhecimento, porém‚ é o que gera os novos produtos, a nova medicina e o avanço tecnológico em geral. A esse processo chamamos de inovação tecnológica. E, na medida em que ela gera novos produtos, ou inova os existentes, proporciona, pela maior competitividade, as condições necessárias ao desenvolvimento da nação empenhada no processo inovatório.

        Como o conhecimento é universalmente disponível, não há adrede, a condição de que a inovação seja produzida pelo país gerador do conhecimento. Até parque a inovação tecnológica é um processo multidisciplinar e raramente um único país produz todos os conhecimentos que lhe são indispensáveis. Essa circunstãncia possibilitou, historicamente, que países sem tradição científica se tornassem os beneficiários do conhecimento gerado alhures por meio do seu espírito empreendedor, ou de uma política com esse objetivo.

        Foi o caso dos Estados Unidos no século 19, quando geravam inovações tecnológicas a partir da ciência européia: a iluminação elétrica, a telefonia, os motores e geradores de indução etc. Assim fez o Japão neste século, inovando na ótica, na eletrónica, na siderurgia etc, cujas bases científicas não descobriu.

        Foi o que fez recentemente a Coréia, que inovou em informática, eletrônica, construção naval etc, sem nem sequer ter ciência própria. É também o caminho de Taiwan e de Estados-cidades como Hong Kong e Cingapura. É ainda, a via que está sendo trilhada pela Espanha e por Portugal, cujas tecnologias de energia e de telecomunicações disputam, com sucesso, as privatizações em nosso país.

        É, por fim, a opção da China, cujos produtos de terras raras já marcam a sua presença tecnológica no mundo. E na segunda metade da década passada foi o rumo tomado pela Índia que se estruturou para as inovações de programas de computação (software), transformando-se em poucos anos no segundo exportador.

        Para tomarmos a rota do desenvolvimento, é preciso uma opção ousada das políticas públicas envolvidas em todos os níveis e áreas, fazendo da inovação tecnológica gerada no país o substrato da nossa atuação em todos os setores, mobilizando toda a sociedade, sem o que não o conseguiremos. Não é essencial descobrirmos, mas é fundamental inovarmos em tudo o que fazemos.

        Ou seja, precisamos fomentar a inovação própria no nível do produto final seja um avião, automóvel ou navio, seja um poço ou uma plataforma marítima, uma droga ou vacina, um processo ou equipamento químico, mecânico ou de comunicação, um programa computacional, agrícola, de educação ou de saúde etc.

        É claro que não podemos fazê-lo em tudo, pois nem os Estados Unidos o conseguem. Devemos, então, assumir a prioridade de áreas em que tenhamos vantagens comparativas de competição internacional ou venhamos a tê-las pelo programa de investimentos futuros. Facilmente identificam-se algumas das áreas: aeronáutica, petróleo, energia, telecomunicações, transportes, biodiversidade, fármacos, agricultura, programas computacionais e outras. E já são muitas.

        Para tanto, é condição básica uma atuação pró-ativa dos governos em todos os níveis preferenciando os produtos inovados aqui ou comprando a inovação como o fazem os Estados Unidos e os países desenvolvidos. E é preciso que os órgãos financiadores considerem as empresas que inovam no país preferenciais nos alocações e nos custos dos financiamentos, pois essas são as verdadeiras empresas nacionais, as que constroem o nosso futuro. E a política fiscal deve distinguir os que se arriscam na pesquisa inovativa e os que a importam pronta.

        Mas é claro que, acima de tudo, precisamos criar uma cultura da inovação. No âmbito da pesquisa, isso significa concentrar os esforços de fomento e de bolsas na indução da inovação tecnológica, principalmente mobilizando o setor produtivo, cuja participação é insubstituível. É necessário fazer da busca por inovações o foco da política de pesquisa e não dois ou três entre inúmeros programas que as agências de fomento oferecem, compondo uma sopa de siglas incapaz de mobilizar os pesquisadores e, notadamente, a indústria.

        A inovação tecnológica gerada no país cria o desenvolvimento sustentável, pois independe de decisões como o afluxo de capitais, autorizações de matrizes etc, sendo auto-estimulante. E consolida a própria geração local de conhecimentos, ou ciência na medida em que necessita de forma crescente de recursos humanos qualificados para a pesquisa. E isso é a verdadeira vocação e competência da universidade. Por essa razão, os países em desenvolvimento pela via da inovação crescem em produção científica, todos mais do que nós.

Há muitos anos vimos batendo nessa tecla, mas parece que, finalmente, a sua ressonância amplificou-se. Agora podemos ter uma bandeira, uma causa nacional: façamos da inovação tecnológica gerada no país o novo paradigma do nosso desenvolvimento sustentável.

*professor do Instituto de Física da UFRJ e membro da comissão Especial para o Desenvolvimento Tecnológico do Estado do Rio de Janeiro. email nicolsky@if.ufrj.br.
**o grifo é nosso