Ciência e Desenvolvimento Sustentável

Sérgio Ferreira, presidente da SBPC

A crise ambiental generaliza-se com tal velocidade e dimensão que não basta buscar suas causas só na desestruturação dos sistemas naturais que sustentam a vida no planeta. Análise mais aprofundada evidencia: os desequilíbrios são de natureza política, econômica, social e cultural.

Pensar o desenvolvimento sustentável implica: considerar a necessidade de recuperar o patrimônio natural, preservar os ecossistemas e definir o uso racional dos recursos que permita máxima agregação de valores sócio-econômico-culturais.

Para atingir metas tão grandiosas, é evidente a necessidade de transformação radical de nosso modelo de civilização baseado no desenvolvimentismo e no consumo, com a visão constante do lucro máximo no mínimo tempo. Qual é, então, o papel da ciência na construção de um desenvolvimento sustentável?

Vivemos um momento em que o avanço tecnológico e os impactos, sócioeconômicos decorrentes mostram-se ilimitados e capazes de interferir de modo radical na vida das pessoas, independentemente da diversidade étnica, cultural ou geográfica.

Processos de transformação sócio-cultural-tecnológica que demoravam décadas e até séculos para se legitimar, revelam-se hoje complexos e desafiadores em tempo praticamente instantâneo.

A capacitação tecnológica e a ciência geradas nas Universidades e Centros de Pesquisa, na perspectiva do desenvolvimento sustentável, certamente estão se constituindo em Instrumentos para proteção e uso adequado dos recursos naturais.

Estamos nos capacitando a manejar o solo, as águas, o ar, a buscar melhor viabilidade tecnológica e econômica de energias renováveis. Nas cidades, onde moram 70% da população mundial, o desafio é lograr condições dignas de vida em tecido social tão complexo quanto os mecanismos biológicos.

Apesar de se ser instrumento essencial, a ciência (e a tecnologia), em si, não garantirá o desenvolvimento sustentável.

O que vai definir essa possibilidade é a visão social no investimento produtivo. Também é verdade que a ciência não trouxe nenhum desastre: isso eventualmente ocorreu em função do estímulo ao investimento industrial.

Fazendo análise didática da noção de investimentos/lucros; pode-se dizer que todo investimento produtivo privado (industrial, agropecuário ou extrativo) traz em si quatro lucros: ganho de capital, lucro político e possibilidade de lucro social e ambiental.

Mas, a contradição hoje posta é esta: o modelo econômico prevalecente, o neoliberalismo, se rege pela idéia do investimento de capital com lucro máximo no menor tempo possível, traduzido nos paradigmas de eficiência, qualidade e novidade.

O lucro político está sempre voltado para a proteção do próprio investimento.

Tal concepção intrinsecamente ignora a dimensão do lucro social e ambiental, viáveis no planejamento e na ordenação em médio e longo prazos. Isto faz do neoliberalismo um modelo de gestão socialmente perverso, e ambientalmente predatório.

O confronto é inevitável, porque a idéia de sustentabilidade no desenvolvimento implica equilíbrio entre os vários lucros.

Cabe ao cientista e a todo cidadão ser agente da educação para a cidadania

Por outro lado, o investimento público (que segue a lei de lucro político máximo em tempo mínimo) ignora, com freqüência, o lucro social e ambiental, que - reafirmamos - exige perspectiva de longo prazo, sendo difícil de ser reconhecido por um público apolitizado.

O investimento público é, então, dirigido, no fundamental, para o lucro político que perpetua a manutenção de grupos no poder - essencial para garantir a viabilidade dos lucros máximos no menor tempo possível, não importando os prováveis danos ao equilíbrio tanto social quanto do meio ambiente.

O equilíbrio desses lucros e a possibilidade de desenvolvimento sustentável só serão atingidos quando a sociedade como um todo conquistar a cidadania (o direito de ter direito), exigindo que todos sejam responsabilizados por suas propostas e pelas conseqüências de seus atos.

Nosso grande problema hoje é que o governo federal, gozando de poder imperial, quer nos impingir a idéia de que uma eficiente gerência monetária (baseada em moeda equilibrada, financiadora de investimento produtivo) pode prescindir de ordenação socioeconômica capaz. de distribuir renda - essência de qualquer investimento que garanta o lucro social.

Não podemos permitir que a compulsão pelo moderno e pela globalização/internacionalização destrua as identidades de grupo ou desestimule a criatividade, as aspirações e as condutas de solidariedade e cooperação.

Não podemos aceitar que a função social do ensino e da educação seja definida apenas por graus de desenvolvimento e eficácia econômica ou por coeficientes definidos por instituições financeiras internacionais. Essa visão não pressupõe o essencial à sustentabilidade ambiental - o investimento crítico para produzir o novo, o exercício da criatividade, associado a crenças, costumes e valores socioculturais.

Lamentavelmente, o quadro institucional do país mostra que não há hoje nenhum partido político com clareza desse impasse e muito menos com capacidade para apresentar um projeto político alternativo.

Assim, o rolo compressor do governo federal e sua política neoliberal caminham livremente, conduzindo o país a um modelo de desenvolvimento seguramente insustentável.

Cabe deixar claro que, no contexto brasileiro, apoiamos fortemente todas as medidas governamentais que estimulem o capital privado a compartilhar seus ganhos de capital com a sociedade e o ambiente.

Como ocorre no capitalismo dos países desenvolvidos, onde a indústria investe forte na criação de novas tecnologias e produtos destinados à conservação ambiental.

Não é papel da academia transferir tecnologia ou ensinar a indústria a fazer dinheiro. Esta é que tem de se mostrar capaz e interessada em captar o conhecimento e transformá-lo em investimento produtivo.

A ciência é hoje instrumento fundamental para o desenvolvimento tecnológico e produtivo, necessário à implantação dos vários mecanismos de proteção ambiental.

Mas, cabe também ao cientista e a todo cidadão a responsabilidade de ser agente da educação para a cidadania. Esta é a única forma de assegurar o desenvolvimento sustentável. No plano político-institucional, almejamos uma cidadania que cobre permanentemente as promessas e propostas dos líderes políticos, cujas responsabilidades hoje acabam se diluindo no escudo das fidelidades e acordos partidários.


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