O CONHECIMENTO ATUAL DO CÉREBRO
É AINDA ESTRUTURALISTA


Fernando Pimentel de Souza
UFMG

 

O cérebro é o orgão mais complexo do organismo, situando-se na fronteira da Biologia e da Psicologia. Ao mesmo tempo que é o centro controlador de todos os outros órgãos do corpo, possui funções mentais superiores que definem as caracteristicas básicas do homem. Por isto surgem muitas dificuldades na definição de suas estruturas e respectivas junções. Devido à natureza da maioria das descobertas das últimas décadas, o conhecimento atual da função cerebral está sob grande influência estruturalista.

Há um determinismo genético que define a estrutura básica do cérebro desde os primeiros momentos, mas é espantoso saber que os genes do homem são 98% idênticos aos do chimpanzé; por isto, na diferenciação dos seres, deve-se contabilizar grande influência do meio ambiente na maturação. Crianças humanas, educadas até a última infancia por animais selvagens ou em isolação, adquirem o comportamento desses animais, não aprendem a falar, têm as áreas da fala e do desenvolvimento mental imaturas. Exemplos clássicos são os casos de Genie e do menino de Aveyron. A história de Mooglie, de Rudyard Kipling, representa um erro de ficção (Malson, 1964; Bloom et al., 1985).

O homem sobressai pelo grande desenvolvimento da última estruturaemergente, o cortex que se estima conter cerca de 30 bilhões de neurônios, contra oito e sete bilhões para o do gorila e o do chimpanzé, respectivamente. A funçãc de extensas áreas homogêneas é especifica, dependendo dos órgãos interconectados na periferia do organismo, como os sentidos externos ou comandos motores, ou no próprio córtex referente à organização motara, processos mentais e de associação (Changeux, 1983; Kandel and Schwartz, 1985).

Mamíferos, tendo o córtex removido, inclusive o homem, podem ainda levar vida vegetativa sem grandes prejuízos, á semelhança de mamíferos primitivos como descreveu MacLean (1970). Nos seus comportamentos salientam-se as expressões emocionais, controladas por núcleos e mediadores químicos que se localizam abaixo do córtex.

Alguns exemplos da estrutura da funçãc emocional sàc mostrados a seguir. Núcleos do hipotálamo, funcionando com a droga dopamina, produzem prazer; já os septais, com acetilcolina, orgasmo. Áreas do mesencéfalo dorsal controlam punição. Áreas com drogas opiáceas da substância cinzenta periaquedutal produzem analgesia. Núcleos do hipotàlamo, como os arnigdalóides ou ventro-dorsal, controlam a agressividade, e ventro-medial ou septal, a mansietude. A reversão entre essas duas últimas funções até certo ponto antagônicas permite deduzir a existência de uma ligação interativa entre esses últimos neurônios, em geral inibitórios. Deficiência do núcleo do hipotálamo A10, com dopamina, leva à desatenção, hiperatividade, etc. Ministrando~se a substância DOPA, recupera-se a calma e a atenção. Excesso ou falta de excitação pode levar à mania ou depressão e está relacionada à quantidade de mediadores monoaminérgicos no cérebro, servindo de base para tratamento anual em Psiquiatria biológica, mas há risco de uma série de efeitos secundários e perigo de dependência. A razão é que não se sabe exatamente todas as causas de certas deficiências e quanto elas estão disseminadas em extensas redes neuronais (Calil, 1983 ; Bloom et al., 1985; Kandel and Schwartz, 1985; Graeff, 1985).

Nos animais estruturalmente menos evoluidos, como anfibios e répteis, os comportamentos mais elaborados são as reações reflexas, controlados na medula espinhal e tronco cerebral. Ontcgeneticamente, admite-se que passamos por essas etapas no amadurecimento da fase embrionária à infância, às quais podemos regredir na senilidade (MacLean, 1970).

Descrevem-se profundamente a morfologia, a bioquímica e a farmacologia do sistema nervoso autônomo e de sua ação de controle sobre as vísceras (Kandel e Schwartz, 1985).

A função da atividade humana não pode ser interpretada pelo cérebro de maneira tão reducionista como é feita pelo materialismo radical, como se depreende do argumento de Haldane:"(...) Se o materialismo é verdadeiro, parece-me que nós não podemos saber que é verdade, Se minhas opiniões são o resultado de processos químicos existentes em meu cérebro, eles são determinados pelas leis da química e não da lógica,"

A lógica, porém, é o método mais adequado para explicar os processos mentais, que são emergentes, que não se esgotam num processo químico passivo, do mesmo modo que a terceira dimensão é compatível para descrever os corpos sólidos, e não a segunda dimensão. Por isto os processos cognitivos têm regras próprias distanciadas do conhecimento biológico atual do cérebro (Popper e Eccles, 1991).

Outras grandes divisões funcionais do cérebro podem ser agora discutidas. Popper considera os conhecimentos subjetivo e objetivo como decorrentes da atividade cerebral humana, formando com o cérebro uma tríade. A consciência ou o conhecimento subjetivo de Popper são processos gerados em estreita relação com a mente, chamada também de "Ego". Eccles (1973) especifica no "Ego" três partes : os sentidos extemo e interno e o Ego puro, formado pelo self e pela alma, esta última é apresentada de manteira apriorista e não explicitada na sua relação com o cérebro, portanto não coerente com a visão conjectural de Popper. Popper não admite que a consciência seja uma coisa em si mesma, espiritualista e independente de base biológica. Aliás, a gradual seleção natural que ocorreu durante a evolução no cérebro dos animais mostrou esses processos emergindo correlacionados e interdependentes (Popper e Eccles, 1991).

Para entender melhor essa interpretação trialista interacionista, seguem-se exposições de algumas experiências comportamentais com cérebros humanos (Ecdes, 1973; Bloom et al., 1985; Gazzaniga, 1985). Assimetria cerebral de Geschwind e Levitsky (citado em Eccles, 1973) e observações do cérebro humano bipartido levaram Sperry a postular diferentes funções para cada hemisfério cerebral. O hemisfério dominante para a linguagem, em 95% dos casos, é o esquerdo, que teria também funções analíticas, seqüenciais, aritméticas e computacionais. O hemisfério direito é predominantemente musical, sintético, perceptivo de espaço geométrico e das emoções. A mente engloba todas essas funções emergentes nessas partes do cérebro, com as quais podem interagir estreitamente. Como a linguagem é o instrumento usado para traduzir a consciência, há mais facilidade de se expressar o lado racional e da lógica e menos os mecanismos emocionais.

Eccles formulou uma hipótese de estreita ligação entre a consciência, conseqüentemente a alma, e o hemisfério "dominante", por centralizar o controle da linguagem, à semelhança entre a alma e a pineal de Descartes. Essa conecção, porém, tem sérias restrições de compatibilizar os achados já mencionados e mais os seguintes: a dissonância cognitiva mostrou que cada um dos hemisférios possui uma consciência subjetiva e uma linguagem próprias. Embora a linguagem seja, em geral, mais bem controlada do lado "dominante", a linguagem do hemisfério "menor", o esquerdo, corresponde a uma idade mental de 10 anos de um adulto. Mudança de hemisfério dominante da linguagem revelou-se possível até os cinco anos. Linguagens ideográfica e fonética funcionam independentemente coordenadas em hemisférios diferentes. Cérebros masculinos são um pouco mais propensos à percepção espacial, e femininos, a linguagem, provavelmente devido a suas diferenças hormonais. O compositor Maurice Ravel, que aos 57 anos sofreu um acidente de carro lesando parte do hemisfério direito, perdeu a capacidade de compor, embora ainda haja conservado a discriminação tonal e de timbre. Em suma, a dominância da linguagem não é exclusiva de um hemisfério, nem imutável; cada hemisfério contribui com outras especializações próprias de extremas importâncias para a consciência total; ignora-se tanto como se faria a interação alma-hemisfério dominante, quanto entre a alma-pineal de Descartes. Tudo isto resulta em grandes dificuldades para aceitar a hipótese da alma de Eccles (Bloom et al., 1985; Poppcr e Eccles, 1991).

"Para Jaynes (citado em Bloom et al., 1985) o homem começou a ter um sentido de identidade pessoal, o "self unificado", por volta de 3000 anos A.C., quando foi desenvolvida a linguagem escrita e se começou uma cultura mais complexa, em que o conhecimento subjetivo acumulado deu origem ao conhecimento objetivo e foi passando de uma geração para outra. Isto marcaria o aparecimento do Homo sapiens sapiens, em que havia uma grande aceleração da predominância funcional do hemisfério esquerdo pela linguagem, acompanhada da emergência de maiores consciência verbal e conhecimento. Antes disso o homem possuía uma fraca consciência múltipla, ligada aos dois hemisférios cerebrais bem equivalentes em atividades, recebendo influências dessas funções mentais, distintas uma da outra, localizadas em diferentes partes do cérebro, conforme descritas no inicio, e percebidas como se fossem vozes transcendentais ou de deuses, como se viu na Ilíada de Homero ou no Panteísmo da Antiguidade.

O progresso da linguagem na intensa vida contemporânea conduz o homem a maiores conhecimentos formais e poderes de ação e de antecipação, predominantes no hemisfério esquerdo, mas, sua consciência global referente às outras funções vai ficando prejudicada. O homem contemporâneo caminhou para uma diminuição da sua compreensão holística, na medida que vai perdendo sensibilidade e consciência de outras atividades mentais. A tendência do crescimento do sentido de identidade pessoal é beneficiado, suprimindo vozes "panteístas" do homem primitivo. Instala-se um conflito de metas dentro do próprio cérebro dividido, cuja consciência racional não capta bem as demais, que se manifestam mal em forma de angústia. A esquizofrenia, manifestação extrema dessa identidade confusa, aparece claramente correlacionada com deficiência do lobo frontal, onde se concentram as funções mentais cognitivas, e regride o homem a um debilitado estado de um Homo sapiens,incapaz de articular uma linguagem racional compreeensivel e de se entender por outras formas de comunicação.

Por outro lado, o progresso estruturalista do cérebro tende a se aprofundar. Moléculas que controlam o desenvolvimento e a arquitetura do emaranhado cerebral e componentes de sistemas sintetizadores começam a ser pesquisados pela Engenharia genética. Doenças cerebrais como a de Alzheimer, Parkinson e outras poderão ser ccrrigidas brevemente. Genes que especificam o desenvolvimento de neurônios estão sendo donados, fatores neurotróficos de crescimento e diferenciação isolados, retrovirus utilizados para marcar neurônios, etc. Aprendizagem e memória, operando com tipos particulares de receptores neuronais para aminoácidos excitatórios de potenciação a longo prazo deverão ser mais facilmente determinados (Watson et al., 1992).

Espera-se que, num futuro próximo, se compreenda melhor: a consciência verbal, o raciocínio e a linguagem através da organização de módulos processadores de informação no córtex, cuja dinâmica varia com aprendizagem, memorização, atenção e dependência emocional ; a importância das funções diferenciadas dos dois hemisférios, etc. Para atingir estas metas não basta o conhecimento da estrutura das redes neuronais (Changeux, 1983), pois é ela que goza de instabilidade conectando alternativamente alguns subconjuntos, como conjecturam a teoria das catástrofes de Thom (1972) e o cognitivismo (Dossé, 1993a), assim como considerar outros fatores dinâmicos (Tornlinson-Keasey e Eisert, 1981), que dão ênfases diferenciadas nas estruturas que interagem.

O maior esclarecimento e poder de ação dos processos mentais parecem ir desmitificando os fantasmas que ainda coabitam o cérebro humano, e vão levando o homem a assumir tendenciosamente um destino "consciente" de sua própria vida. Estes progressos, entretanto, não levam à compreensão integral de sua própria vida e de seu compromisso com a espécie, que demandam um sentimento altruista em conflito com a seleção darwiniana dos indivíduos, que é egoísta. Para suportar a sobrecarga ccntemporânea, o homem tem buscado estimulantes mentais, que lhe dão ao menos a impressão de força e de sucesso. Por outra lado, a saciedade humana acirra a cornpetição e o tratamento entre indivíduos, criando maiores tensão e agressividade. Na vida contemporânea, o cérebro humano está sendo submetido a duras provas, de cujo estresse tem se livrado ou por auto-liberação de endorfinas, ou por controle artificial de drogas, que eliminam as respostas do sistema nervoso simpático para suportar a violência. Essa pressão seletiva, se continuada por gerações, poderá ou ser mais adaptativa a uma outra espécie mutante para um homem regressivo para elimina de vez essa parte do sistema nervoso, ou forçar o desenvolvimento de um melhor controle mental e de uma sociedade mais aperfeiçoada com uma melhor qualidade de vida, mas isto parece que só ocorrerá numa fase pós-estruturalista. Enquanto isto, todas essas tendências viverão conjuntamente na humanidade, que detém o conhecimento da divisão estrutural do seu cérebro sem integrá-los, dificultando a vida dos individuos por estarem, muitas vezes, inconscientes desta trama (Watson et al., 1992; Dossé,1993b; Changeux, 1983).

 

BIBLIOGRAFIA


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