Fauna e flora em códigos de barra
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ERNESTO BRAGA

A comunidade científica brasileira comemora o que considera
um avanço na catalogação de espécies da fauna e flora. A
classificação deixa de ser feita exclusivamente através da
taxonomia clássica, ou seja, da análise morfológica (formas e
estruturas dos organismos) dos seres vivos, e passa a contar com
uma metodologia inovadora: o estudo do DNA.
As informações genéticas serão agrupadas no que os
especialistas chamam de “código de barras” de animais e
plantas. Uma rede nacional de cientistas, incluindo o
pesquisador Fabrício Rodrigues dos Santos, do Instituto de
Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), se articula para catalogar, inicialmente, 200 mil
novas espécies brasileiras. O novo método é denominado
barcode – sigla em inglês para código de barra – ou taxonomia
para o DNA e ainda está em fase de divulgação.
Para Santos, o barcode proporcionará rapidez na classificação
dos seres vivos e levará ao conhecimento de novas espécies de
animais e plantas. “Na taxonomia clássica, as espécies de uma
área precisam ser analisadas por vários especialistas, espalhados
pelo mundo inteiro. Existem 60 famílias de formiga, por
exemplo, e um especialista para cada família. A análise
demoraria até cinco anos para ser feita. Com a degradação
ambiental avançada, algumas espécies podem entrar em
extinção antes de serem conhecidas”, avaliou.

Agilidade

Santos, que é chefe do laboratório de biodiversidade e evolução
molecular do ICB, ressaltou que o novo método permitirá que a
classificação dos seres vivos seja feita aqui mesmo no Brasil e
em menor tempo. “Para espécies de uma área já conhecida, a
catalogação pode ser feita em um ano, com um quarto do
trabalho e uma quarto do dinheiro”, disse.
Segundo o pesquisador, o DNA fornece maior variação de
caracteres do que a análise morfológica, “democratizando” o
processo. Todas as informações genéticas ficarão arquivadas em
computadores, agilizando também o acesso a elas. “É preciso
ficar claro que não existe código de barra para ser vivo. O que
estamos fazendo é apenas uma metáfora”, acrescentou.
Rede nacional
O pesquisador da UFMG faz parte de uma rede nacional de
cientistas que se organiza para catalogar 200 mil novas espécies
da fauna e flora brasileira, através do barcode.
Junto com ele estão especialistas do Instituto Nacional de
Pesquisa da Amazônia (Inpa) das universidade estaduais de São
Paulo (USP), Campinas (Unicamp) e de Feira de Santana, na
Bahia, além das federais do Rio Grande do Sul, Pará, Espírito
Santo e Rio de Janeiro. “O pontapé inicial foi dado em maio do
ano passado, quando foi criado um consórcio internacional
sobre o barcode. Até novembro, ainda não tinha sido feita
nenhuma discussão no Brasil, maior país em biodiversidade do
planeta. Então nós criamos a rede de colaboração para divulgar
a nova metodologia e canalizar projetos de inventariado
biológico”, disse Santos.
Segundo ele, a rede nacional está elaborando projetos pilotos
para a classificação de animais e plantas ainda desconhecidos da
Amazônia e de áreas de mata Atlântica e do cerrado, que estão
ameaçados. Inicialmente deverão ser catalogadas 200 mil novas
espécies. “Vamos começar pelos grupos mais difíceis
(invertebrados, pássaros, morcegos e peixes).”
Santos disse ainda que o barcode dará uma perspectiva de
classificação das espécies que antes não se tinha conhecimento.
“Na vasta Amazônia, levaríamos até 200 anos para fazer o
trabalho. Imaginem quantas espécies novas não deverão
surgir?”, avaliou o pesquisador.

Método é usado há dez anos para catalogar microrganismos

O barcode é utilizado, há dez anos, na catalogação de
microrganismos. “Só agora o método passou a ser usado na
classificação de animais e plantas. Para os microrganismos, ele
passou por uma remodelagem”, disse o pesquisador Fabrício
Rodrigues dos Santos, da UFMG.
Além da agilizar a identificação das espécies, observou, a
análise do DNA também ajudará a coibir a biopirataria. “Se uma
determinada espécie de peixe em extinção estiver sendo
exportada como se fosse outra, a biopirataria será descoberta
por meio da consulta ao ’código de barra’ daquele peixe.”
O barcode ainda contribuirá, mesmo que indiretamente, com a
medicina. Santos explicou que áreas que contenham
determinadas plantas com princípios ativos importantes para a
produção de remédios poderão ser preservadas para serem
exploradas com fins medicinais. “O barcode não trabalha
diretamente com isso, mas o extrato da planta poderá ser
adquirido numa determinada região que esteja devidamente
catalogada. Com o método atual, essa catalogação é precária.
Nós conhecemos apenas 2% da Amazônia, por exemplo.”
O pesquisador afirmou que a nova técnica não tem o objetivo de
substituir a taxonomia clássica, mas, sim, de completála. “Um
milhão e 700 mil espécies conhecidas atualmente no mundo foi
descrito por meio da morfologia e não podemos passar uma
borracha sobre esse trabalho. Estima-se que haja de 10 milhões
a 30 milhões de espécies. O barcode vem contribuir para esse
esclarecimento. Mas precisaremos contar com o apoio dos
taxonomistas clássicos”, explicou.

Técnica evitará sacrifício de animais, diz cientista

Com o novo modelo de classificação da fauna e flora brasileira,
através da análise do DNA, os animais não precisarão ser
sacrificados, como ocorre na taxonomia clássica. “Basta apenas
retirar algumas gotas de sangue do bicho, ou um pedacinho de
pena, para fazermos o estudo, e uma fotografia para o controle.
No método clássico, é preciso ter um animal empalhado, como
testemunho”, disse o pesquisador da UFMG, Fabrício
Rodrigues dos Santos.
Uma vez recolhida, a amostra do animal é armazenada no banco
de DNA do laboratório de biodiversidade e evolução molecular
do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. Em
seguida, ele passa por vários processos até ser catalogado no
“código de barra”, contendo suas informações genéticas.