Reinaldo
José Lopes escreve para a 'Folha de SP'
O diferencial
da humanidade no mercado evolutivo não foi a mera sequência
de DNA no genoma, mas como (e onde) o Homo sapiens a utilizou. É
o que sugere um estudo de cientistas da Alemanha e dos EUA, para os quais
a chave está na quantidade de proteínas que o cérebro
humano é capaz de produzir.
A pesquisa,
que sai nesta sexta-feira na revista científica norte-americana
'Science' (http://www.sciencemag.org), ajuda, de quebra, a pôr um
pouquinho de complexidade na maneira como se entende a relação
entre o código genético e os atributos de cada espécie.
De acordo com o estudo, a mudança no cérebro ocorreu cinco
vezes mais rápido no homem do que em seus parentes primatas.
Já
se desconfiava que o segredo do triunfo evolutivo humano não estivesse
só nos genes: afinal, 98,7% do DNA do Homo sapiens é igual
ao dos 'primos' mais próximos do homem, os chimpanzés.
Para
entender quais as diferenças na produção de proteínas
entre o homem e seus parentes mais próximos, os pesquisadores do
Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (nordeste da
Alemanha), usaram amostras do córtex (a 'massa cinzenta' do cérebro)
de humanos e chimpanzés (Pan troglodytes), além de pedaços
do fígado e glóbulos brancos do sangue.
Para
efeito de comparação, também foi usado o tecido cerebral
de orangotango (Pongo pygmaeus) e de macaco reso (Macaca mulatta). É
que esses bichos, embora sejam primatas como o homem, estão bem
mais longe dele na escala evolutiva: uns 10 milhões e 20 milhões
de anos. O chimpanzé, em comparação, é um primo
de primeiro grau: calcula-se seus ancestrais tenham se separado dos avós
da humanidade na evolução há apenas 5 milhões
de anos.
Usina
de proteínas
A principal
medida usada pelos cientistas foi o mRNA (RNA mensageiro), a molécula
que transmite as ordens do DNA para fabricar proteínas. Se existe
muito mRNA de uma dada proteína, é quase certo que ela está
sendo produzida na mesma proporção e também é
possível saber quais genes estão mesmo ativos.
Curiosamente,
a diferença nesse aspecto entre humanos e chimpanzés era
mínima, embora aumentasse em relação aos outros primatas.
A coisa mudava de figura, porém, quando o assunto era cérebro:
o grau de mudança na produção de proteínas
era cinco vezes maior em humanos do que em chimpanzés.
Mas
como se chegou a esse número? 'A princípio, se você
observa uma diferença entre nós e um chimpanzé, não
dá para saber quem mudou e quem permaneceu igual, já que
nós nos separamos em duas espécies diferentes', disse à
Folha Wolfgang Enard, autor principal do estudo. 'Então, você
os compara com um grupo mais distante evolutivamente; quem for mais parecido
com o grupo externo provavelmente é o que mudou mais', afirmou o
pesquisador.
No
caso, o cérebro dos chimpanzés se mostrou mais próximo
dos macacos resos do que dos humanos.
Outro
dado fundamental: a diferença entre os tipos de proteína
encontrados nos cérebros de cada espécie era mínimo.
O que variava, e muito, era a quantidade de cada proteína.
'Isso
sugere que o importante não é a diferença nos genes
que cada espécie tem, ou mesmo como esses genes diferem na sua estrutura,
mas como eles são regulados para produzir mais ou menos proteínas'',
especula Enard.
Mais
é melhor
O trabalho
de Enard e seus colegas ainda é preliminar: não foi possível
considerar genes ou proteínas individualmente, nem buscar uma razão
para a evolução ultra-rápida do cérebro humano,
algo sem paralelo em outros grupos de mamíferos.
Mas,
para Fabrício Santos, geneticista da UFMG (Universidade Federal
de Minas Gerais), o estudo reforça a idéia de que o salto
humano foi quantitativo e não qualitativo. 'O grande salto foi dado
pelos grandes símios, que já têm áreas do cérebro
como as nossas', afirma Santos.
'Ainda
falta muito para ser feito sobre esse tema. Mas provavelmente o que levou
o homem a uma evolução tão rápida no cérebro
foi a necessidade de se adaptar a nichos ecológicos muito diferentes.
O chimpanzé nunca teve de usar tanto o cérebro para se adaptar,
porque permaneceu no ambiente de floresta', diz Santos.
(Folha
de SP, 12/4) |