Segunda-Feira, 15 de abril de 2002
 
 
JC e-mail 2012, de 12 de Abril de 2002.
Excesso de proteína cria intelecto humano
 
Pesquisa alemã revela que a quantidade dessas moléculas no cérebro é o diferencial entre homens e chimpanzés

Reinaldo José Lopes escreve para a 'Folha de SP'

O diferencial da humanidade no mercado evolutivo não foi a mera sequência de DNA no genoma, mas como (e onde) o Homo sapiens a utilizou. É o que sugere um estudo de cientistas da Alemanha e dos EUA, para os quais a chave está na quantidade de proteínas que o cérebro humano é capaz de produzir.

A pesquisa, que sai nesta sexta-feira na revista científica norte-americana 'Science' (http://www.sciencemag.org), ajuda, de quebra, a pôr um pouquinho de complexidade na maneira como se entende a relação entre o código genético e os atributos de cada espécie. De acordo com o estudo, a mudança no cérebro ocorreu cinco vezes mais rápido no homem do que em seus parentes primatas.

Já se desconfiava que o segredo do triunfo evolutivo humano não estivesse só nos genes: afinal, 98,7% do DNA do Homo sapiens é igual ao dos 'primos' mais próximos do homem, os chimpanzés.

Para entender quais as diferenças na produção de proteínas entre o homem e seus parentes mais próximos, os pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (nordeste da Alemanha), usaram amostras do córtex (a 'massa cinzenta' do cérebro) de humanos e chimpanzés (Pan troglodytes), além de pedaços do fígado e glóbulos brancos do sangue.

Para efeito de comparação, também foi usado o tecido cerebral de orangotango (Pongo pygmaeus) e de macaco reso (Macaca mulatta). É que esses bichos, embora sejam primatas como o homem, estão bem mais longe dele na escala evolutiva: uns 10 milhões e 20 milhões de anos. O chimpanzé, em comparação, é um primo de primeiro grau: calcula-se seus ancestrais tenham se separado dos avós da humanidade na evolução há apenas 5 milhões de anos.

Usina de proteínas

A principal medida usada pelos cientistas foi o mRNA (RNA mensageiro), a molécula que transmite as ordens do DNA para fabricar proteínas. Se existe muito mRNA de uma dada proteína, é quase certo que ela está sendo produzida na mesma proporção e também é possível saber quais genes estão mesmo ativos.

Curiosamente, a diferença nesse aspecto entre humanos e chimpanzés era mínima, embora aumentasse em relação aos outros primatas. A coisa mudava de figura, porém, quando o assunto era cérebro: o grau de mudança na produção de proteínas era cinco vezes maior em humanos do que em chimpanzés.

Mas como se chegou a esse número? 'A princípio, se você observa uma diferença entre nós e um chimpanzé, não dá para saber quem mudou e quem permaneceu igual, já que nós nos separamos em duas espécies diferentes', disse à Folha Wolfgang Enard, autor principal do estudo. 'Então, você os compara com um grupo mais distante evolutivamente; quem for mais parecido com o grupo externo provavelmente é o que mudou mais', afirmou o pesquisador.

No caso, o cérebro dos chimpanzés se mostrou mais próximo dos macacos resos do que dos humanos.

Outro dado fundamental: a diferença entre os tipos de proteína encontrados nos cérebros de cada espécie era mínimo. O que variava, e muito, era a quantidade de cada proteína.

'Isso sugere que o importante não é a diferença nos genes que cada espécie tem, ou mesmo como esses genes diferem na sua estrutura, mas como eles são regulados para produzir mais ou menos proteínas'', especula Enard.

Mais é melhor

O trabalho de Enard e seus colegas ainda é preliminar: não foi possível considerar genes ou proteínas individualmente, nem buscar uma razão para a evolução ultra-rápida do cérebro humano, algo sem paralelo em outros grupos de mamíferos.

Mas, para Fabrício Santos, geneticista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o estudo reforça a idéia de que o salto humano foi quantitativo e não qualitativo. 'O grande salto foi dado pelos grandes símios, que já têm áreas do cérebro como as nossas', afirma Santos.

'Ainda falta muito para ser feito sobre esse tema. Mas provavelmente o que levou o homem a uma evolução tão rápida no cérebro foi a necessidade de se adaptar a nichos ecológicos muito diferentes. O chimpanzé nunca teve de usar tanto o cérebro para se adaptar, porque permaneceu no ambiente de floresta', diz Santos.
(Folha de SP, 12/4)