São Paulo, quinta-feira, 07 de março de 2002

ANTROPOLOGIA

Genética sugere que expansão para fora da África se deu com mistura, não com substituição de populações

Miscigenação gerou humanos modernos

REINALDO JOSÉ LOPES
FREE-LANCE PARA A FOLHA

A tese de que o ser humano moderno nasceu na África e simplesmente substituiu as antigas variedades de hominídeos que existiam no resto do Velho Mundo acaba de levar uma bela rasteira. Analisando amostras do genoma de pessoas de quatro continentes, um estudo diz ter mostrado que, se a África nunca deixou de exportar genes, eles se misturaram com outros em vez de exterminá-los. Em resumo, o Homo sapiens pode ter sangue neandertal.
A miscigenação ancestral está sendo defendida pelo americano Alan Templeton, na edição de hoje da revista científica britânica "Nature" (
www.nature.com). Sua idéia era compreender geneticamente como se deu a expansão das linhagens humanas pré-históricas a partir da África.
Os indícios antropológicos há muito tempo dão a entender que o continente exerceu influência enorme na hora de moldar as características do homem moderno.
O difícil era saber se isso ocorreu a ferro e fogo, com os africanos substituindo os hominídeos que alcançaram a Ásia e a Europa antes deles, ou se houve uma difusão por cruzamento de traços modernos, que prevaleceram.
Tentar determinar pela via genética a origem do Homo sapiens não é algo exatamente novo. Em 1987, a geneticista Rebecca Cann, da Universidade do Havaí, causou sensação ao anunciar a "Eva africana" -uma estimativa, feita com base num tipo de DNA que não se recombina e só é transmitido pelo lado materno, de que a ancestral comum da humanidade teria vivido em algum lugar da África há cerca de 200 mil anos.
Templeton, porém, reuniu em sua análise genes diversos, provenientes do DNA das mitocôndrias (o tipo analisado por Cann), do cromossomo Y (que determina o sexo masculino, transmitido apenas de pai a filho) e de diversas outras áreas de cromossomos comuns. Amostras de populações da África, Ásia, Europa e América, que variavam entre 35 e 1.500 pessoas, foram esmiuçadas.
Em comum, os pedaços do genoma que entraram na análise têm a propriedade de não se recombinar, isto é, de não se misturar com os genes de um parceiro na fecundação. Com isso, a única mudança que os afeta é a mutação. Conhecendo-se a taxa de mutação ao longo do tempo, é possível estimar a "antiguidade" de um gene -quanto mais mutações existirem, maior sua idade.
Usando o Geodis, programa de computador que analisa as mutações nas diferentes amostras, Templeton conseguiu indícios de pelo menos duas "ondas" genéticas depois que o Homo erectus saiu da África pela primeira vez há 1,7 milhão de anos: uma há 600 mil anos e outra há 100 mil anos (veja quadro à esquerda).

Continuidade
Mais importante que isso, porém, são as marcas de continuidade: de dez genes, oito continuavam presentes mesmo depois da última expansão -sinal forte de que os colonos africanos se misturaram aos que os precederam e nunca ficaram totalmente separados deles, já que o cruzamento com descendentes férteis só acontece dentro da mesma espécie. "Essas expansões reforçaram os laços genéticos entre as populações humanas ao redor do mundo", diz Templeton.
A teoria, se confirmada, pode gerar um meio-termo entre a chamada hipótese "out of Africa", que prega a substituição completa dos outros hominídeos pelos africanos, e o multirregionalismo, segundo o qual o Homo sapiens emergiu independentemente em várias partes da Terra.
"Não tenho dúvida de que isso vai cair como uma bomba", afirma o antrópologo Walter Neves, da USP. Neves, defensor da hipótese "out of Africa", diz que as evidências apresentadas por Templeton de um intercruzamento, ao menos na migração de 100 mil anos atrás, são inquestionáveis.
"Na verdade, esse trabalho não confirma nem desconfirma as hipóteses, mas cria um modelo misto, em que há cruzamento entre as populações e, ao mesmo tempo, uma influência monolítica da África", diz o antropólogo. "Uma das grandes críticas ao intercruzamento é saber se havia população suficiente para dispersar os genes. Mas hoje a gente sabe que basta um indivíduo por geração para transmitir um gene", conclui.

Mistério português
Já Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, elogia o pioneirismo do trabalho ao analisar tantos genes ao mesmo tempo, mas diz que em alguns casos, como o do cromossomo Y, os dados foram muito limitados. "Para uma análise totalmente confiável desse tipo, serão necessários mais genes ainda", afirma. Com isso, uma polêmica descoberta de 1998 deve ser reavaliada
:: o fóssil de 30 mil anos de um menino, achado em Portugal, com traços modernos e neandertais