O Valor da Ciência e da Divulgação Científica

"O sujeito (cientista) em seu relacionamento com o mundo  (atividade científica), consigo mesmo e com o absoluto, nada  encontra de firme. A existência é algo incerto e inseguro"
Kierkgaard 
 
    Outra característica importante da atividade científica é o de  que a Ciência não é panacéia universal. Ocorre com freqüência  o oposto: por exemplo, a aplicação dos princípios teóricos e  tecnológicos para a elaboração de armas nucleares. Assim,  muitos cientistas trabalham para a indústria militar (que por  cruel ironia produz emprego e riqueza em certas nações, que  por conseqüência dispõem de mais recursos para investir na  atividade científica - este não é caso do Brasil, onde se produz  80% das minas que mutilam africanos). Seres humanos são  usados como cobaias para estudar certas doenças, como  ocorreu em Tuskegee, Alabama de 1932 a 1972. Nesse estudo,  foi informado a um grupo de 309 negros com sífilis e outro com  210 sem a doença, que estavam com o sangue ruim. A todos  foi prometido tratamento (penicilina), mas recebiam somente  água com açúcar. Em 1969, morreram 28, em 1972, 74 e em  1997, apenas 7 sobreviveram. Além disso, a ciência e  tecnologia produziram talidomida, CFC (responsável por parte  da destruição da camada de ozônio), gases que atacam o  sistema nervoso, poluições diversas que podem arruinar o clima  do planeta e extinguir espécies animais e vegetais. 

    Tais imperfeições da prática científica têm justificado para  alguns o aumento da propagação da crença em superstições  ou explicações peudocientíficas: se a ciência nem sempre está  correta e não é uma fonte de riquezas morais, então o melhor é  buscar uma "ciência alternativa". Uma vez colocado em dúvida  os conhecimentos científicos, abre-se o caminho para crenças  sobre a vida emocional das plantas, continentes que emergem  e afundam rapidamente, Terras ocas, canalização dos mortos,  deuses astronautas, estupro astral, alienígenas entre nós,  civilizações subterrâneas e criacionismo científico. Um dos  responsáveis pelo apego a superstições é o desconhecimento  de como a atividade científica é desempenhada. Antes porém,  algo deve ser dito sobre os que acreditam na "ciência  alternativa". Desde os gregos, sabemos que o desejo de  conhecer o mundo é inerente à nossa natureza. Por isso,  pessoas que pagam por crenças e superstições, em boas  livrarias, não devem ser consideradas ignorantes. Elas desejam  sinceramente compreender e sondar o mundo ao seu redor,  mas por não entenderem como o conhecimento científico é  adquirido, caem no conto do vigário, acreditando estar  comprando livros com alguma informação sensata.

    A Ciência tem muitas deficiências. Porém, para investigar  fenômenos naturais e fornecer soluções para problemas  concretos, o procedimento científico é o melhor de que  dispomos. Além disso, os conhecimentos produzidos podem  ser testados e se necessário corrigidos. O máximo que o  cientista pode esperar é o aperfeiçoamento de seu  conhecimento pela colaboração e crítica, inerentes ao  conhecimento científico. Inversamente, a pseudociência produz  certezas imunes à crítica e correções. Como debater ou corrigir  o que não se tem acesso?

    A Ciência moderna tem conseguido avançar em várias áreas.  Doenças que vitimavam a humanidade têm sido curadas. A  expectativa de vida na Europa Ocidental passou de 30 anos, na  Idade Média, para 50 em 1915 e se aproxima dos 75 anos.  Caso haja vontade política, já há meios eficientes e seguros de  produzir mais alimentos nutritivos. Conhecemos muito da  intimidade constitutiva da matéria e dispomos de boas  hipóteses sobre a origem do Universo. O conhecimento da mais  incipiente das ciências tem mais valor do que toda a história da  astrologia. Prever eclipses com séculos de antecedência não é  um problema difícil para a astronomia — mas em 11 de agosto  de 1999 não ocorreu o fim do mundo!.

    Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos  científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais ?  Uma das respostas é a de que o desconhecimento da  capacidade explicativa limitada da ciência, abre caminho para a  superstição. Quando uma pessoa adoece ela pode tomar  remédio, rezar ou ambos. Se ela reza e não toma o remédio é  porque está convicta do poder curativo da reza e desconhece  ou despreza um tratamento cientificamente comprovado.

    Esta dificuldade em se perceber o valor da Ciência resulta da  linguagem hermética dos cientistas. O conhecimento científico  assim fica restrito às 4 paredes das Universidades e Institutos  de Pesquisas. Apenas a democratização do conhecimento o  tornará acessível e capaz de barrar o avanço da superstição e  da pseudociência. Para mostrar que a divulgação científica é  possível basta citarmos Carl Sagan, Stephen Jay Gould,  Edward Wilson e o brasileiro José Reis. Um livro árido como  supostamente deveria ser um sobre história da Filosofia,  esteve, há pouco tempo, na lista dos mais vendidos. Atividades  de extensão e aperfeiçoamento de professores do ensino  básico e fundamental podem ser realizadas por cientistas sem  comprometer seu tempo de dedicação à pesquisa. Basta que  mudem sua linguagem, o mínimo que se espera numa  democracia, onde as pessoas precisam se entender. Aliás,  este seria um serviço útil dos cientistas para a própria  compreensão da Ciência que tanto prezam.

    Finalmente, se quisermos o apoio da sociedade às  reivindicações de mais verbas para a pesquisa, devemos  divulgar para o público, ou mesmo facilitar para que um  jornalista o faça, o valor social da atividade que  desempenhamos. 

 

Francisco Ângelo Coutinho  Filósofo da ciência  e Rogério Parentoni Martins  Professor de Ecologia e Coordenador

Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG