das toxinas presentes no veneno total da Phoneutria nigriventer
Alguns modelos experimetais para estudos farmacofisiológicos, tais como a preparação de sinaptossomas do córtex de camundongos, vêm sendo utilizados para levantar dados a respeito da ação dos polipeptídeos tóxicos de animais peçonhentos. Desta forma os processos celulares como a liberação de neurotransmissores nos sistemas nervosos, podem ser medidos e caracterizados, permitindo um melhor entendimento dos mecanismos moleculares destes polipeptídeos tóxicos.
O veneno neurotóxico periférico produz dor intensa e imediata, irradiando para a raiz do membro afetado. Choque pode ser observado mais freqüentemente em crianças sendo caracterizado por suor frio, agitação, salivação priapismo e morte. A maioria dos casos é insignificante e de evolução benigna, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde, Instituto Butantan, 1982. Em diversos acidentes ocorridos com humanos, causados pela Phoneutria nigriventer, Vital Brasil et al. (1987) observou, entre outros efeitos, perturbações cardíacas, caracterizadas por taquicardia e arritmia. Isto está relacionado com a composição do veneno, que possui, entre outras substâncias, a histamina e a serotonina, dois polipeptídeos que provocam contração no íleo de porquinho-da-índia, além de outros polipeptídeos tóxicos ativos, tais como a hialuronidase e enzimas proteolíticas. Em 1964, Pereira Lima e Schenberg conseguiram separar através de eletroforese somente os componentes que causam flacidez e paralisia. O resultado da cromatografia mostrou que o veneno da Phoneutria contém componentes de diferentes pesos moleculares, os quais possuem semelhantes atividades farmacológicas. O efeito do veneno sobre aurícula de cobaias (porquinho-da-índia) é produzido através de liberação de acetilcolina e noradrenalina, neurotransmissores de terminais nervosos simpáticos e parassimpáticos. Esta liberação ocorre pela ação do veneno sobre os canais de sódio de membranas terminais nervosas. Ativação de canais de sódio pelo veneno de P. nigriventer é também encontrado em membranas dos terminais de nervos motores e em fibras musculares esqueléticas. O veneno da Phoneutria nigriventer contém neurotoxinas que atuam nos canais de sódio conduzindo ou a um bloqueio neuromuscular sobre o nervo frênico numa preparação do músculo diafragma (Fontana e Brazil, 1985) ou liberação de aceltilcolina ou norepinefrina no sistema nervoso autônomo destruindo as aurículas de porquinhos-da-índia (Vital Brazil et. al., 1988). A peçonha da aranha, ao agir sobre os canais de sódio, pode provocar perturbações cardíacas (Brazil et al., 1988). Este veneno também contém um polipeptídio que provoca repetidos potenciais de ação no nervo crural e contração de músculos esqueléticos em preparações neuromusculares de fêmur de gafanhoto (Entwistle et. al., 1982). Em 1990, Antunes e colaboradores descreveu a atividade espasmogênica do veneno de Phoneutria nigriventer em músculos lisos vasculares de coelho. Em 1992, Antunes e colaboradores investigou o aumento da permeabilidade vascular induzido pelo veneno da Phoneutria . Neste estudo eles demostraram que o veneno contém substâncias que aumentam a permeabilidade vascular em pele de ratos e coelhos levando a formação de edema local. Estudos anteriores sobre a pele mostraram que o edema é devido a ações sinérgicas de mediadores que aumentam a permeabilidade microvascular e os vasodilatadores (Brain e Williams, 1985).
Os autores deste estudo deduziram que o veneno da Phoneutria contém elementos edematogênicos, provavelmente polipeptídicos, os quais não são antagonizados pelos antagonistas da histamina e serotonina. A pesquisa no modo de ação da peçonha é altamente desejável devido aos efeitos que produz em preparações musculares decorrentes de ações miméticas do sistema nervoso autonômico simpático e parassimpático, através da liberação de neurotransmissores. O estudo fisiológico constitui um modelo alternativo para a contribuição na descrição dos fenômenos relacionados a ação de peptídeos tóxicos oriundos de animais peçonhentos.