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Para quem gosta de cachoeiras, Alenquer é o paraíso. São dezenas de quedas
dágua que ornamentam os rios maicuru, cuminá, curuá e os
diversos igarapés que neles deságuam . Os primeiros registros das magnificas quedas
dágua foram feitos entre 1900 e 1901 pela exploradora francesa Madame
Coudreau, que subiu o rio curuá com a missão de identificar
riquezas e relatá-las ao governo do estado. O deslumbramento e espanto da exploradora com
as cachoeiras e exuberantes belezas cênicas estão relatadas em seu livro voyage
au Rio Curuá. Mas ela não foi, no entanto, a primeira testemunha destes
caprichos da natureza. Escravos amotinados que criaram o Mocambo do Pacoval
já haviam passado por aqui antes enquanto fugiam da milícia. A palavra paradisíaco não
é somente uma força de expressão quando se refere à cahoeira Vale do Paraíso.
São vários os motivos que atraem turistas ao vale do paraíso. A floresta amazônica,
tão flagrante ao redor do vale, a beleza da cachoeira que por ter um formato tipo escada
pode ser desfrutada pelo banhista em toda a sua extensão, a piscina natural com um
conveniente trampolim de pedra para o banhista mais ousado, a infra-estrutura que conta
com restaurante e chalés para hospedar o turista que queira ter um contato ainda mais
íntimo com as energias e mistérios da floresta. Há ainda uma trilha que leva os
visitantes com espírito aventureiro a mais duas cachoeiras, bem mais altas que a
primeira, com piscinas naturais cuja profundidade garante àqueles que se candidatam a um
salto de mais
de 20 metros de altura, um mergulho seguro em suas águas cristalinas. A flora e
exuberante e as margens do igarapé são as vezes caprichosamente enfeitadas com belas
orquídeas.
Outra cachoeira de singular beleza cênica é a cachoeira do
Bem-fica. O rio curuá é cortado de uma margem a outra, cobrindo uma extensão
de aproximadamente 100 metros, com queda dágua variando entre 7 metros na época em
que o rio está mais cheio, até 15m na época de maior estiagem. Em seu entorno, a
paisagem varia entre pequenas piscinas naturais incrustadas nas pedras e uma bela praia,
que se tornam um constante chamado ao banho. A abundância de várias espécies de peixe
neste trecho do rio é um excelente convite para a prática da pesca esportiva, ou uma
irresistível piracaia ao cair da noite.
Em
meio a um ambiente aparentemente inóspito, onde o relevo mais parece com a floresta
tropical asiática encontramos a cachoeira Chuva de Prata. Para chegar à
cachoeira é preciso ter espírito aventureiro aliado a uma boa forma física para
superar, após duas horas de carro, mais 10 Km mata a dentro, subindo as encostas e as
serras que escondem esse fantástico atrativo.
A natureza não decepciona o visitante, por maior que sejam suas
expectativas. Para compensar o cansaço da subida, a diversidade da flora local vai se
revelando em agradáveis surpresas. Plantas as vezes estranhas e vigorosas contrastam com
belas e frágeis flores que vão sendo descobertas na medida em que se entra mais e mais
na densa floresta intocada. Diversas variedades de orquídeas e bromélias enfeitam
criteriosamente a trilha como que dando
boas vindas, presenteando o turista pela coragem e determinação de ir em busca das mais
raras e espetaculares visões que a amazônia esconde, inclusive cavernas subterrâneas e
pequenas quedas dágua totalmente ocultas pela densa vegetação. O acampamento é
feito bem próximo a cabeceira de uma cachoeira de aproximadamente 5 metros de altura, com
uma pequena gruta atrás da queda. O igarapé parece seguir tranquilo seu curso dali em
diante, e quem vê as águas correndo mansamente por este ângulo, não imagina que poucos
metros a frente haja um abismo de aproximadamente 70 metros em que as águas do igarapé
do inferno despencam violentamente o ano inteiro, tanto no inverno quanto no forte verão
amazônico. É a cachoeira Chuva de Prata. O espetáculo é
impressionante para quem tem o privilégio de conhecê-la pessoalmente. O ambiente
altamente úmido o ano inteiro cria no vale abaixo dos Kannions um ecossistema peculiar,
inclusive com espécies endêmicas. O esforço demandado na viagem se torna um tributo
pequeno demais pelo privilégio de testemunhar tão raro fenômeno.

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