ABELHAS SILVESTRES COMO INDICADORES DE QUALIDADE AMBIENTAL EM ÁREAS DA MANNESMANN FLORESTAL
![]() |
Alexsander Araújo de Azevedo |
Projeto em andamento.
As abelhas constituem o principal grupo de agentes polinizadores das plantas floríferas, contribuindo para aumentar a produtividade de frutos e sementes. Tal fato confere a elas grande importância nas comunidades bióticas e a conservação da fauna de abelhas tem sido considerada um fator importante na preservação das espécies vegetais. Além disto, os frutos e sementes que as abelhas ajudam a produzir são, também, fontes de alimento para aves e mamíferos nativos. Entretanto, as populações de abelhas silvestres têm sido reduzidas drasticamente, devido à eliminação de suas fontes de alimento e locais de nidificação pela ocupação intensiva da terra pela agricultura e urbanização e pela intoxicação com pesticidas. A redução das populações de abelhas, por sua vez, pode levar à diminuição da produção de frutos e sementes por plantas cultivadas e nativas. Mesmo em áreas preservadas, a influência antrópica é causa de alterações ambientais (às vezes sutis) que põem em risco as populações locais de abelhas e, consequentemente, das plantas por elas polinizadas.
As Abelhas do Cerrado
As abelhas desempenham importante papel na polinização das plantas do cerrado. Silberbauer-Gottsberger & Gottsberger (1988) concluíram, estudando 279 espécies de angiospermas, que as abelhas eram polinizadores exclusivos de 29% das plantas do cerrado, sendo, ainda, polinizadores principais ou adicionais de outros 46%.
O conhecimento da fauna de abelhas do cerrado é ainda incipiente. Em Minas Gerais, Silveira (1989) levantou a fauna de uma área em Paraopeba e Carvalho (1990), a de uma área em Uberlândia. Martins (1990) inventariou a fauna de abelhas de uma área em Lençóis, na Bahia, e Campos (1989), Pedro (1992) e Mateus (1998) levantaram as faunas de abelhas de áreas de cerrado no Estado de São Paulo. Estes levantamentos sistemáticos apontaram faunas locais de 120 a 190 espécies de abelhas em áreas de apenas 0,1 ha a 15 ha!
Na única tentativa de compilação dos conhecimentos feita até o momento, Silveira & Campos (1995) concluiram que, comparativamente às faunas de outros biomas brasileiros, a fauna de abelhas do cerrado pode ser assim caracterizada:
1. Faunas locais relativamente ricas em espécies, com grande percentual de espécies raras.Eles sugerem, ainda, que espécies endêmicas de abelhas do cerrado estaríam associadas a grupos de plantas específicos, restringindo-se a regiões relativamente pequenas e/ou ocorrendo em manchas no domínio dos cerrados, de acordo com a distribuição geográfica de suas plantas hospedeiras.2. Densidades populacionais relativamente baixas.
3. Grande variação na composição das faunas locais, aparentemente relacionada à variação da composição florística.
4. Alta representatividade, em termos de número de indivíduos e número de espécies, das tribos coletoras de óleo (Centridini, Tapinotaspini e Tetrapediini).
5. Grande diversidade de espécies de abelhas indígenas sem ferrão (Meliponina).
6. Baixa riqueza relativa e pequena densidade populacional das espécies das famílias Andrenidae e Halictidae.
É preciso ressaltar, entretanto, que estes estudos amostraram
áreas marginais e/ou impactadas de cerrado. É importante
que sejam amostradas áreas bem preservadas e mais centrais deste
bioma, para que se tenha uma idéia mais clara sobre a composição
da melissofauna do cerrado e sobre os fatores determinantes de sua variação
geográfica.
As Abelhas como Bioindicadoras
A grande riqueza de espécies de abelhas geralmente encontrada em cada localidade reflete a diversidade com que as várias espécies exploram o ambiente. Para que possam reproduzir-se, as abelhas necessitam de hábitats que preencham os seguintes pré-requisitos (Westrich, 1996): 1– sítios ou substratos apropriados para nidificação; 2– para certas espécies, materiais específicos para construção de ninhos e 3– quantidade suficiente de fontes de alimento (plantas floríferas) específicas. Estas três condições têm de estar presentes concomitantemente dentro da área de vôo das abelhas. As exigências de cada espécie de abelhas com relação a estes três itens, entretanto, não são idênticas. Assim, algumas espécies de abelhas nidificam em galerias escavadas no solo, outras em orifícios escavados em madeira morta, outras em ocos de árvore etc; algumas espécies são generalistas quanto às fontes de alimento que exploram, outras dependem inteiramente de algumas espécies de plantas específicas. Estes fatores fazem com que diferentes espécies, ou grupos de espécies, em uma mesma localidade se prestem como indicadoras de diferentes impactos sobre o ambiente. Seguem alguns exemplos:
Melipona quadrifasciata, espécie de ocorrência generalizada nos cerrados, nidifica em ocos em troncos de árvores. Para que as árvores possam abrigar os ninhos destas espécies, entretanto, é preciso que elas atinjam grande porte. A ausência de Melipona quadrifasciata na Estação Florestal de Experimentação de Paraopeba (Silveira, 1989) provavelmente é uma indicação indireta do corte seletivo de árvores na área, detectado por Silva Jr. & Silva (1988) em seu trabalho de fitossociologia.
Silveira & Campos (1995) mostraram que há uma relação entre a abundância e riqueza em espécies de tribos de abelhas coletoras de óleo (Centridini, Tapinotaspidini e Tetrapediini) e a riqueza em espécies de Malphighiaceae (cujas flores produzem o óleo procurado pelas abelhas). A alteração da vegetação nativa do cerrado, com a diminuição da quantidade de plantas desta família pode, portanto, causar um decréscimo na abundância e riqueza de espécies destas abelhas. Outras abelhas dependentes dos recursos de outras plantas nativas podem também servir como indicadoras.
Além disto, as abelhas são altamente vulneráveis à intoxicação por praguicidas (Free, 1970; Thaler & Plowright, 1980; Hansen & Osgood, 1984; Thomson et al., 1985). Estas substâncias, ao contaminarem as flores, podem causar mortalidade generalizada entre as abelhas das mais diversas espécies.
As diferentes espécies de abelhas possuem diferentes capacidades de vôo. Esta capacidade está, de modo geral, relacionada ao tamanho corporal. Assim, enquanto abelhas pequenas possuem raio de vôo de apenas várias dezenas de metros em torno de seu ninho, abelhas maiores podem voar até vários quilômetros de distância.
Para que possam ser utilizadas com indicadoras e para que possam ser eficientemente preservadas, entretanto, é preciso que se saiba, antes de mais nada: 1) quais são as espécies de abelhas existentes em cada área; 2) onde estas abelhas nidificam; 3) quais são suas fontes de alimento. Com este conhecimento, adquirido em levantamento preliminar, pode-se definir um plano de monitoramento populacional adequado a cada área.
PROPOSTA DE ESTUDOS
Propõe-se: 1– inventariar a fauna de abelhas e suas fontes de alimento em áreas de reserva de fazendas da Mannesmann Florestal; 2– com base nos conhecimentos obtidos, selecionar espécies vegetais que atraiam espécies de abelhas que apresentem características de interesse e 3– estabelecer um programa de monitoramento das faunas e populações de abelhas nas áreas de reserva e nas áreas exploradas pela empresa, com base na observação dessas plantas.
O presente projeto diz respeito ao primeiro e segundo itens acima. O
terceiro ítem será objeto de projeto posterior, por depender
dos resultados obtidos na primeira fase dos trabalhos.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Áreas de Estudo
Em cada fazenda a ser inventariada, será escolhida a área de reserva que reuna o maior número das seguintes características: 1– maior área de reserva na fazenda; 2– área menos impactada entre as áreas de reserva da fazenda; 3– cobertura de cerrado sensu stricto ou campo cerrado, em que a amostragem possa ser feita em todos ou quase todos os estratos da vegetação. Em cada uma destas áreas será demarcado um sítio amostral de 1 a 4 ha, onde serão executadas as amostragens padronizadas (ver abaixo). Inicialmente, pensa-se em demarcar sítios de coleta padronizada em Paraopeba, Felixlândia, Brasilândia de Minas e Bocaiúva.
Amostragem das Abelhas
Será feita de forma a atender a dois objetivos: 1– obtenção de parâmetros faunísticos comparáveis aos obtidos nas diferentes áreas e ao longo do tempo; 2– maximização do número de espécies registradas.
Para a consecução do primeiro objetivo serão executadas amostragens padronizadas, segundo a metodologia empregada por Silveira et al. (1993), nos sítios amostrais definidos acima. Estes sítios serão percorridos a passo lento e todas as plantas encontradas em flor serão examinadas em busca de abelhas. Abelhas coletadas em cada faixa de horário e nas flores de cada espécie vegetal serão coletadas, mortas em frascos mortíferos e acondicionadas em saquinhos de papel, separadamente de outras abelhas coletadas em outros horários e plantas. Estas amostragens serão realizadas dentro do horário de maior atividade das abelhas (8:00 h e 16:00 h).
Para a complementação da lista de espécies de cada área (objetivo 2, acima), coletas serão realizadas fora dos sítios de amostragem padronizada. Nestas amostragens será dada especial atenção às plantas floridas que não se encontrarem naqueles sítios. Ainda visando a maximização da lista de espécies, poderão ser empregadas, paralelamente às coletas nas flores, iscas aromáticas para a captura de machos de abelhas da subtribo Euglossina. Estas abelhas são ariscas e de vôo rápido e, por isto, dificilmente capturadas nas flores. Elas, porém, têm grande potencial de utilização como bioindicadoras.
As abelhas coletadas serão montadas em alfinete entomológico, etiquetadas e depositadas na coleção de referência do Laboratório de Sistemática e Ecologia de Abelhas do Departamento de Zoologia da UFMG. Sua identificação será alcançada com a utilização de chaves taxonômicas e por comparação com abelhas identificadas previamente por especialistas e depositadas na coleção. Os dados referentes a dia, hora, local e planta em cujas flores as abelhas forem coletadas serão registrados em banco de dados em computador.
Uma amostra das espécies mais comuns nas áreas de estudo será enviada para a Mannesmann Florestal, para compor um mostruário na emprêsa.
Para a determinação das fontes de alimento para as abelhas,
serão coletadas excicatas das plantas em cujas flores as abelhas
forem encontradas. Estas excicatas serão depositadas no Herbário
do Departamento de Botânica da UFMG, que se encarregará de
obter sua identificação.
Análise dos Dados
Caracterização das faunas locais. Será feita pela comparação entre as faunas de cada fazenda amostrada e entre essas e as faunas de outras regiões amostradas previamente em Minas Gerais e no Brasil. Comparações serão feitas com base na abundância populacional, na riqueza em espécies e na composição faunística, como em Silveira et al. (1993) e Silveira & Campos (1995). A abundância populacional será expressa pelo número de indivíduos capturados durante as coletas padronizadas, dividido pelo número de horas de coleta empregado. A riqueza relativa de espécies será medida pelo número esperado de espécies (Hurlbert,1971) em uma amostra aleatória de pelo menos 400 indivíduos, de acordo com a recomendação de Cure et al. (1990). A contribuição de cada tribo e gênero para o total de espécies e indivíduos coletados será utilizada para estimar a similaridade entre os vários locais a serem comparados. Tal estimativa será obtida com o emprego do índice de similaridade percentual de Renkonen (recomendado por Wolda, 1981 para amostras pequenas) e utilizada para agrupar as várias faunas locais de acordo com suas similaridades médias.
Divisão da fauna de abelhas de acordo com a similaridade de utilização dos recursos florais. A similaridade no uso de recursos alimentares pelas diversas espécies (ou grupos de espécies) de abelhas será estimada utilizando-se do índice de Renkonen e as espécies agrupadas por suas similaridades médias. Os resultados destas análises serão utilizados como auxílio na escolha das plantas a serem empregadas no monitoramento futuro.